Planta da medicina chinesa mostra potencial contra lesão hepática causada por paracetamol
Pesquisa detalha mecanismo antioxidante e anti-inflamatório de alcaloides do huanglian, em meio à preocupação global com intoxicações por analgésicos

Huanglian
Um conjunto de alcaloides extraídos do Coptidis Rhizoma, planta central da medicina tradicional chinesa conhecida como huanglian, demonstrou capacidade de reduzir de forma significativa os danos ao fígado provocados pela overdose de paracetamol, segundo estudo publicado neste mês na revista científica Antioxidants. A pesquisa combina experimentos em células humanas e testes em camundongos e aponta dois mecanismos principais de proteção: o reforço da produção de glutationa — principal antioxidante do organismo — e o bloqueio de vias inflamatórias associadas à progressão da lesão hepática.
O paracetamol, amplamente utilizado como analgésico e antitérmico e presente em dezenas de medicamentos de venda livre, é hoje uma das principais causas de lesão hepática induzida por fármacos no mundo. Estimativas citadas no estudo indicam uma incidência global anual de 7,4 casos de intoxicação por 100 mil habitantes. Em situações de superdosagem, o fígado passa a produzir grandes quantidades de um metabólito tóxico, o NAPQI, que consome rapidamente as reservas de glutationa e desencadeia estresse oxidativo, inflamação e morte de hepatócitos.
A equipe liderada por pesquisadores da Universidade de Dalian e do Instituto de Medicina Tradicional Chinesa Marinha, na China, identificou 18 alcaloides ativos no extrato da planta e mostrou que eles atuam diretamente nesse ponto crítico do processo. Em camundongos intoxicados com paracetamol, o tratamento com os alcaloides elevou em até 2,2 vezes os níveis de cisteína — aminoácido essencial para a síntese de glutationa — e em 1,8 vez os níveis hepáticos de glutationa, reduzindo marcadores de estresse oxidativo e normalizando enzimas associadas à lesão do fígado, como ALT e AST.
“Os alcaloides do Coptidis Rhizoma restauram a capacidade antioxidante do fígado ao aumentar a disponibilidade de cisteína, o fator limitante para a produção de glutationa. Isso permite neutralizar o metabólito tóxico do paracetamol antes que ele cause danos irreversíveis às células hepáticas.”
Baomin Feng, autor sênior do estudo.
Além do efeito antioxidante, o trabalho detalha uma ação anti-inflamatória relevante. Os pesquisadores observaram a inibição das vias de sinalização TNF, ERK e NF-nB, responsáveis pela ativação de citocinas inflamatórias como TNF-alfa, IL-6 e IL-1B. Nos experimentos, a fosforilação dessas proteínas foi reduzida em cerca de 40%, interrompendo o ciclo inflamatório que costuma agravar a lesão hepática após a intoxicação.
O achado ganha peso quando comparado ao tratamento padrão atual. Hoje, o único antídoto aprovado para a intoxicação por paracetamol é a N-acetilcisteína (NAC), que também atua como precursora da glutationa. Segundo os autores, embora a NAC seja eficaz, sua ação depende da capacidade individual do paciente de sintetizar glutationa. No estudo, os alcaloides do huanglian mostraram efeito antioxidante comparável e, em alguns parâmetros inflamatórios, desempenho superior.
Historicamente utilizada há séculos na medicina chinesa para “eliminar calor e toxinas”, a planta já havia demonstrado propriedades hepatoprotetoras em outros modelos experimentais. Esta é, segundo os autores, a primeira demonstração sistemática de sua eficácia específica contra a lesão hepática induzida por paracetamol, com descrição detalhada dos mecanismos bioquímicos envolvidos.
Para Yujie Lu, coautora do trabalho, os resultados abrem caminho para novas estratégias terapêuticas. “A combinação de ação antioxidante e anti-inflamatória sugere que esses alcaloides podem servir de base para o desenvolvimento de tratamentos complementares ou preventivos, especialmente em populações expostas ao uso frequente de analgésicos”, diz.
Especialistas ressaltam, contudo, que os dados ainda são pré-clínicos. Ensaios em humanos serão necessários antes de qualquer aplicação clínica. Ainda assim, o estudo reforça um movimento crescente na farmacologia contemporânea: a reavaliação científica de compostos tradicionais em busca de respostas para problemas modernos de saúde pública, como o uso excessivo e, muitas vezes, inadvertido de medicamentos comuns.
Referência
Os alcaloides do rizoma de Coptidis aliviam a lesão hepática induzida pelo paracetamol através da regulação do metabolismo da glutationa (GSH) e da via de sinalização do TNF. Xiaoyao Ma ,Jiali Rao ,Xue Fei Li ,Zibin Li ,Xuan Lu ,Yujie Lu ,Juan Guo eBaomin Feng. Antioxidantes 2026 , 15 (2), 223; https://doi.org/10.3390/antiox15020223 (DOI registrado) - 8 de fevereiro de 2026